quarta-feira, 17 de abril de 2013

"Antes de fazermos um campeão temos que fazer um cidadão" Entrevista Prof. Boxe Claudio Coelho


Entrevista n. 3
Prof. Boxe Claudio Coelho
Març, 2013


Prof Claudio Coelho durante uma de suas aulas - Academia Nobre Arte Boxe
(CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR)

Amigos,

Eis aqui a terceira edição do Blog Só Casca! Desta vez conversei com o lendário treinador de boxe Cláudio Coelho fundador da Academia Nobre Arte, mais um casca grossa genuíno.  A primeira vez que vi o professor foi na época em que eu cobria eventos de MMA, como fotógrafo. Notava que ele era sempre acompanhado no corner de muitos lutadores vitoriosos e nem por isso deixa de manter a postura discreta e moderada. Na conversa que se lê abaixo, entre uma de suas aulas conheci um pouco a história desse homem determinado filho de dona Eurídices que tinha medo que ele ficasse "maluco" levando as pancadas do boxe , e um dia, cansado das "tragédias" diárias do morro dia disse "basta!" e  lutou arduamente na vida  para através do boxe salvar gerações de jovens da marginalidade. Por último, meus agradecimentos a profa. Drica que permitiu que essa entrevista se concretizasse.


1.       SÓ CASCA ! – qual foi a primeira vez que o senhor ouviu falar de boxe na sua vida?
2.       CLÁUDIO COELHO – Desde os 14 anos de idade quando era fã do Muhammad Ali e aquilo era uma coisa linda, pois foi a primeira coisa que vi de esporte de luta na televisão, apesar de naquela época, eu só fui ter televisão na minha casa aos 18 anos.

sinais característicos da Academia Nobre Arte as homenagens aos atletas que lá estiveram - Academia Nobre Arte Boxe

3.       SÓ CASCA ! – o senhor veio de uma família humilde?
4.       CLÁUDIO COELHO – é exatamente, sempre nascido e criado na favela.

5.       SÓ CASCA ! – aqui nesta comunidade?
6.     CLÁUDIO COELHO – aqui nesse Cantagalo (comunidade do Canta Galo, Ipanema, Rio de Janeiro), fui nascido e criado aqui.

7.       SÓ CASCA ! – Mas por que justamente o boxe e não outras artes marciais?
8.       CLÁUDIO COELHO –  eu não sei se foi  a primeira coisa que vi, aquela trocação de socos, achei aquilo bonito, não sei ... Eu ainda peguei a época da tv preto e branco, mas aquilo me fascinou, mas veja como são as coisas. Quando, fiz 16 anos o primeiro esporte que fiz foi o judô. Eu consegui ganhar uma bolsa de um menino que morava aqui em Ipanema, o conheci aqui no Arpoador, o nome dele era Edgar Wallace, hoje já falecido. Levou-me para fazer judô com ele e foi justamente lá que onde eu fui fazer judô que conheci meu professor de boxe.

- Academia Nobre Arte Boxe

- Academia Nobre Arte Boxe

9.       SÓ CASCA ! – Veja só, procurou o judô para achar o boxe...
10.    CLÁUDIO COELHO – que coisa do destino, uma academia de judô que tinha tudo, academia famosa na Teixeira de Mello,  Gama Filho.

11.    SÓ CASCA ! – Tinha alguma coisa haver coma universidade que hoje conhecemos aqui no Rio de Janeiro?
12.    CLÁUDIO COELHO – Tinha sim, porque era o Pedro Gama filho que montou esta academia, ele era o reitor na universidade nesta época. Bom e aí o que aconteceu, eu fazia judô e um dia fui assistir uma aula de boxe lá, ministrada pelo prof. Edson dos Anjos.  Por incrível que pareça, para você ver como o boxe era discriminado nesta época, em todas as salas as portas eram de vidro, de judô, tinha eu acho que de capoeira, luta livre, mas a única que tinha porta de madeira era a do boxe. Sabe por quê? Para as mães dos alunos não verem as aulas de boxe, porque tinha uma imagem extremamente agressiva em razão das pancadas então a aula era feita as portas fechadas.

- Academia Nobre Arte Boxe

- Academia Nobre Arte Boxe

13.    SÓ CASCA ! – Mas, isso não assustou o senhor?
14.    CLÁUDIO COELHO – Não! aquilo na verdade me encantou. Quando acabava o judô eu ia lá para a sala assistir o boxe, até que um dia o professor me perguntou se eu queria fazer uma aula de boxe.

15.    SÓ CASCA ! – Isso foi em que ano?
16.    CLÁUDIO COELHO – Ah meu amigo, eu tinha 14 anos, estou com 57, vamos fazer calculo, isso tem quase 40 anos, no início da década de setenta.

17.    SÓ CASCA ! – Uma história antiga mesmo...
18.    CLÁUDIO COELHO – é meu amigo, então continuando, como era muito playboy que treinava, ele dava um boxe que ele chamava de boxe "societi", que era um boxe para se distinguir do boxe agressivo. O nosso boxe “societi” era mais para elite, mais para o cárdico vascular, como um exercício. Então comecei a auxiliá-lo, rapaz, eu fui largando o judô e ficando ali.

Prof. Claudio Coelho e suas duas obras recentemente publicadas e
 à venda na  Academia Nobre Arte Boxe



19.    SÓ CASCA ! – O senhor chegou até que graduação no judô?
20.    CLÁUDIO COELHO – Ah, eu acho que nem faixa laranja. Diante daquilo tudo eu fui para o boxe. Não queria mais fazer outra coisa. Até que em um período , meu professor foi fazer direito na Gama Filho, ele teve que parar com o boxe na Teixeira de Mello. Tive que voltar ao judô. Fiquei uns 4 anos dando outras ocupações a minha vida. Quando ele se formou em direito, ele montou uma academia aqui na Gávea, na Rua Major Rubens Vaz. Ele me chamou para ir para lá, e fomos trabalhando juntos, uns 6 ou 7 anos com boxe. Até que um dia ele desgostoso do Brasil por causa de trabalho foi para Minesota, EUA, e me pediu: “gostaria que você dese continuidade na minha metodologia de ensino porque o boxe é muito discriminado”. Aí eu já era um cara jovem, mas por gostar daquilo era meio perfeccionista, na metodologia. Existia uma metodologia na época bem arcaica, na qual se dizia que o sujeito para aprender tinha que apanhar... e o meu professor dizia  o contrário “você tem que aprender para não apanhar”. Enfim a metodologia da época pregava que você tinha que se acostumar com as pancadas do boxe.

21.    SÓ CASCA ! – Devia assustar todo mundo este método de ensino?
22.    CLÁUDIO COELHO – É verdade. Mais era assim que funcionava desde os primórdios, de modo que só ficava quem era casca grossa. Então tinha muito acidente. Como esse meu professor era um carca extremamento  inteligente, tinha estudado e tudo, desenvolveu métodos de treinamento que dava condições do cara aprender, conhecer os fundamentos, e só entrar no ringue quando estava preparado, e, ainda assim, com profissionais que ele ia desenvolvendo. Quando ele foi embora, fiquei assustado porque ele largou tudo aquilo na minha mão.
Por toda academia há fotos do prof Claudio Coelho com seus amigos (aqui o mestre Helio Gracie)
- Academia Nobre Arte Boxe

seus idolos - Academia Nobre Arte Boxe

e de lutas memoráveis como esta do grande Pedro Riso
- Academia Nobre Arte Boxe

23.    SÓ CASCA ! – O senhor tinha quantos anos?
24.    CLÁUDIO COELHO – Talvez uns 26, 27 anos. Aí eu fiquei mais ou menos uns 6 meses paradado. Resolvi ir lá para o Sport Club Radar e montar uma academia de boxe registrada com nome e tudo bonitinho, chamei o Fernando Hugo, que era um aluno do prof. Edson dos Anjos, arquiteto e tal. Dei nome a academia de NOBRE ARTE porque descobri que no passado, nos primórdios eram os nobres que faziam boxe, comecei a primar pela aula técnica, para desmitir aquela agressividade.

25.    SÓ CASCA ! – Desde cedo então o senhor se voltou para ser treinador e não atleta de boxe?
26.    CLÁUDIO COELHO – Até porque eu conto isso no meu livro...
A carismática profa. Drica não escolhe treino, vai para o ringue com qualquer um dos alunos - Academia  Nobre Arte
27.    SÓ CASCA ! – Esse livro foi publicado por qual editoura?
28.    CLÁUDIO COELHO – Pela Ediouro, na verdade são dois livros, um sobre a minha metodologia de boxe própria, que no Brasil não tem, eu fui o primeiro, e outro livro, sobre minha história na favela. Então continuando ... O quê que aconteceu eu não podia lutar boxe, porque, meus pais foram analfabetos e eu tinha um irmão com síndrome de down, meu pai teve derrame quando eu tinha 12 anos, tive até que largar estudo para entregar pão aqui na rua Rainha Elizabeth para não faltar nada em casa. Acontecia que minha mãe não era esclarecida e morava um militar aqui perto de casa e ele conhecia boxe no quartel. Até que um dia ele disse para minha mãe “Dona Eurídices seu filho está medito com coisa de boxe e ele é muito magro prá isso e boxe deixa as pessoas maluco”. Rapaz para que ele falou isso para minha mãe?! A minha mãe por falta de esclarecimento, nós já tínhamos um irmão com síndrome de down aí ela associava as coisas e ameaçava de fazer escândalo  na porta da academia com esse negócio de luta. Rapaz, foi um negócio sério fiquei um bom tempo fazendo boxe escondido , você tá entendo? Era de costume da gente da época se respeitar muito bem pai e mãe, então eu tive chances de competir e não podia por causa disso o Edson não deixava “não quero, eu não quero que sua mãe venha aqui e se acontecer alguma coisa eu vou ser culpado” você vai ficar como meu auxiliar porque você vai ser um excelente treinador, isso eu até agradeço a ela no livro. Fui seguindo, ele também sempre falava “você foi nascido e criado na favela, nós somos negros, para poder estar no meio desses brancos temos tentar que ser duas vezes melhor, tu vai estudar!” olha a consciência dele, e eu, trabalhava, estudava e treinava, era uma confusão do caramba.
Prof. Claudio Coelho
- Academia Nobre Arte Boxe

29.    SÓ CASCA ! – O senhor trabalhava em quê?
30.    CLÁUDIO COELHO – trabalhava num escritório de arquitetura, conheci meu patrão aos 14 anos e trabalhei 22 anos no escritório. Pegava as 9:30, treinava de 7 as 9 ira para o Centro da cidade, e da cidade ira para o colégio para terminar o segundo grau anoite. Fui tomando o rumo na minha vida, pondo gente para competir, desenvolvendo uma série de coisas, minha mente foi abrindo...

31.    SÓ CASCA ! – Isso no Clube Radar?
32.    CLÁUDIO COELHO – No Radar, aí o Radar fechou , foi aonde eu cheguei aqui nesse CIEP.
Prof Claudio Coelho entre a prof Drica e seus alunos treinando
- Academia Nobre Arte Boxe

- Academia Nobre Arte Boxe

- Academia Nobre Arte Boxe

33.    SÓ CASCA ! – Já tem mais de 20 anos?
34.    CLÁUDIO COELHO – Aqui tem mais de 24 anos, aqui que foi a parada dura, porque este prédio só vivia no noticiário policial, isso aqui era uma bandidagem que você não tem noção, boca de fumo, ali naquele hall de elevadores que a gente passou, já teve mortes ali, tinha de tudo. Mas, fui na diretora da escola e fiz uma proposta para ela prometendo que a partir do momento em que eu colocasse um esporte de luta aqui dentro eu iria melhorar o convívio do pessoal da comunidade com quem administrava o CIEPE. Aí o que eu fiz? Fui ao traficante e falei que não era legal boca de fumo aqui dentro e matança porque iria atrapalhar o negócio dele lá e que ele tinha jovens que queriam praticar luta, parentes dele, e que isso não era boa imagem. Ele aceitou tudo, “não. O senhor falou tá falado, vou mudar tudo de lá!”, convenci-o de que tinha que ser criado lá no CIEPE um centro de treinamento. Ele até falou para mim “tenho meu filho, sei que não vou viver muito tempo, quero que o senhor toma conta desse f.d.p. pra mim que eu não quero isso para ele.” Era um garoto de uns 10 anos. Rapaz, isso aqui, a partir de então foi tendo uma melhora. Isto que você está vendo aqui era tudo quebrado, tudo sujo, imundo, ninguém descia aqui, só em cima havia o CIEPE, roubavam a cantina, meu irmão, era uma tragédia! Aí fui amenizando isso tudo, até que ganhei uma carta de agradecimento da Prefeitura,   que a Diretora deu, ela já estava com planos certos de se demitir do cargo de diretora porque não conseguia administrar o colégio, depois as coisas melhoraram  para os professores. Fomos ganhando torneios eu botando a galera da comunidade para competir, a galera que não  tinha condições de pagar uma academia e só fazia o que não presta, fui trazendo eles para cá, e trabalhando a cabeça deles que tinham que ter boas notas e isso ao longo do tempo fui juntado um grupo para trabalhar comigo. Não era nem a criança era o adolescente rebelde, na idade crítica que eu buscava.
alunos do prof Claudio Coelho que lutam MMA
- Academia Nobre Arte Boxe


- Academia Nobre Arte Boxe

35.    SÓ CASCA ! –  Ao que o senhor atribui esse seu interesse em ajudar esses adolescentes?
36.    CLÁUDIO COELHO – Porque eu morava ali dentro e vi aquilo tudo! e eu tive uma oportunidade e senti uma obrigação de retribuir. Só que minha educação era uma educação de berço de outra época. Vi tantas coisas acontecerem com meus amigos que não tiveram a mesma oportunidade que eu. Tem coisas que as vezes muita a gente não quer acreditar, só acredita na coisa da ciência, mas tem coisas que as vezes estão escritras no destino da gente. Quanto mais dificuldade eu tinha mais força adquiri para enfrentar meus desafios. Você vê mais tarde com 40 anos, comecei a viajar o mundo todo, 5 passaportes, treinando lutador de vale-tudo, viajei prá um lado e pro outro e a academia inflamada de garoto rebelde, problemático, nego de boca de fumo, nego que já foi assaltante e tudo tomando rumo através do esporte. Então você imagina, esse local que você está em 24 anos, quantas gerações de jovens rebeldes passaram por aqui? são três comunidades, Pavão, Pavãozinho, Cantagalo, só que é o seguinte, vem gente da Rocinha, do Vidigal, do subúrbio, a academia ganhou um nome vultuoso por causa das competições e aquela coisa de eu não cobrar um centavo de ninguém.

- Academia Nobre Arte Boxe


- Academia Nobre Arte Boxe

- Academia Nobre Arte Boxe

37.    SÓ CASCA ! – Mas há alunos que pagam?
38.    CLÁUDIO COELHO – Mas, como é que eu consegui isso? Naquela época. Morro cheio de bandido, tiroteio danado, consegui que pessoas do asfalto viessem aqui para prestigiar o trabalho, essa mistura asfalto e favela, me ajudasse aqui para manter o projeto, me ajudou a socializar o garoto da favela. Aquele que vinha do asfalto vinha aqui para ajudar a manter a academia, pagar um saco, um saco desses de boxe custa R$ 200 , R$ 300 , como é que um cara do boxe pode ter isso?, um salário mínimo R$ 600, uma luva de boxe R$ 200,00, como um garoto do morro vai ter? Tudo que você vê aqui são de doações. Você está vendo essas janelas, esses adesivos, isto aqui era quebrado, não existia nada, não tinha ringue. O que eu fiz? a galera de jiu-jitsu que vinha aqui começou a ajudar, eu disse para a galera que precisávamos reformar o espaço e eles decidiram que iriam fazer um multirão, botamos as janelas, pintamos, ringue, até que um dia eu chamei um pintor para escrever o nome deles nas paredes em agradecimento ao que fizeram por nossa academia. Então hoje você vê tudo isso aqui arrumadinho, mas não imagina que isso aqui era que nem o castelo do conde Drácula. Quando chovia vinha água, muita e mesmo naquelas condições precárias  tínhamos gente aqui treinando que você não faz idéia. Então isso tudo foi muito legal porque foi uma coisa que foi feita com muita dificuldade e o mais importante para mim foi ajudar  aquele jovem aparentemente sem chance nenhuma, derrepente chegar perto dele e trocar uma idéia, coisa que o pai e mãe não tem condição de conversar porque o estão trabalhando. O garoto fica no morro vendo tudo que é coisa ruim em torno dele. Aqui no morro nós somos uma ilha cercada de coisas ruins, os maus exemplos  estão aí por toda parte, e um adolescente na idade crítica capta isso com toda facilidade, por que? Meu irmão ele tá vendo tudo isso aí , tá vendo o traficante com cordão de ouro, tênnis de marca, tudo caro, e ele acha que aquilo é fácil. E outro fator, esse garoto é totalmente abandonado pelo poder público. Essa violência desenfreada, matança, matança, tiroteio, poder público completamente desmoralizado. Eu pensava aqui pequeno, sentado na minha casa aqui no morro, vendo amigo morrer em tiroteio, gente a única coisa que eu posso fazer para ajudar aqui é através do esporte, é único campo onde eu posso barganhar com esse jovem. Eu desmistifiquei a idéia que o garoto da comunidade, o negro da comunidade tinha do branco, que o branco não gosta do negro, quando esse pessoal subiu isso desmistificou, o esporte é capaz, mas nós temos que fazer nossa parte. Aqui não é só ensinar boxe, aqui tem palestra, aqui tem conversa, aqui é duro, se tá entendendo? Essa pegada a gente não perde. Aqui o garoto ganha um presente não é porque ele é bom de boxe, e sim porque ele tem comportamento. Não adianta você chegar aqui treinar a garotada e o menino chegar na sala de aula e fazer da professora uma refém, isso não adianta, não adianta mesmo. ANTES DE FAZER UM CAMPEÃO TEMOS QUE FAZER UM CIDADÃO, esse é o nosso lema do projeto, é isso que a gente trabalha, o foco do trabalho, está aberto a todos para treinar.
- Academia Nobre Arte Boxe

- Academia Nobre Arte Boxe

39.    SÓ CASCA ! – O senhor é um homem regiligioso?
40.    CLÁUDIO COELHO – Meu amigo eu sou um católico não praticante, porque eu quase não vou a igreja, mas sou um cara extremamente temente a Deus. Não vou a missa, mas não deito sem fazer minhas rezas, não saio de casa também sem minhas orações e por aí eu vou indo. Ao longo de minha vida sempre foi assim, já tive e tenho enormes desafios pela minha frente, e quando chega esses momentos eu clamo por Deus em meus pensamentos e quando a gente pensa que está tudo perdido sempre tem uma luz. Isso é pessoal, é de individuo para individuo, de acreditar na existência desse Ser, acreditar também que nossa passagem por esse mundo é curta e todos nós temos uma missão, seja ela para o bem ou para o mal. Se a missão é essa... eu sempre tive oportunidade de ir morar fora do Brasil, mas nunca gostei, nunca quis ir, mas também pedi a Deus para eu nunca me arrepender disto. Para não ficar “a se eu tivesse ido...” não peço Deus para eu continuar aqui fazendo o meu trabalho dando continuidade, aqui hoje mais parece uma obra social que uma academia. A mãe do garoto que trabalha na casa do advogado, quem precisa já tem um, o outro precisa de um tratamento dentário e o sujeito que vem treinar aqui é dentista e todos, assim, aqui dentro, vão se ajudando. O cara do asfalto que está aqui há mais de dez anos eu chego para ele e peço para ajudar na lista de escolar do garoto da comunidade. A filosofia do trabalho é essa, agora quando se trata de treinamento, o garoto tá com uma conduta boa, tem talento do boxe, aí já é uma outra fase, é treinamento, requer condição de alimentação, as vezes é um bom garoto, mas come mal, não se alimenta direito, não tem um plano de saúde e você não pode dar um carga de treinamento para ele. O professor tem que ter psicologia para ver isso e se você não for daqui da comunidade e não conhecer essa realidade você não vai ver e nem vai querer ver !

41.    SÓ CASCA ! – O senhor acha que o MMA ajudou o boxe?
42.    CLÁUDIO COELHO – Sempre ajuda o boxe ou a qualquer luta, porque vão precisar sempre do treinamento do boxe. O quê mais alavancou minha vida ao longo do tempo? Eu conheço o vale-tudo desde quando começou, agora que nego tá com isso, conheço há tempos, e o que mais me alavancou não foi o próprio obxe, foi o pessoal do MMA, me levando para todo canto, então você vê como são as coisas, se eu tenho isso aqui não é por causa do boxe e sim por causa do MMA, então você vê como são essas coisas ainda há essa política do boxe por causa dos cartolas, então o boxe fica desacreditado, hoje nós temos vários brasileiros tentando a vida no boxe, mas aonde? Conseguiram entrar nos EUA, se vai dar certo ou não é outra coisa, mas o cara está no lugar certo!
- Academia Nobre Arte Boxe

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43.    SÓ CASCA ! – O senhor lembra do seus primeiros alunos a despontar ?
44.    CLÁUDIO COELHO – Ah tem muitos, aqui você tem muitos, ali a parede está cheia de homemagens a pessoas que já treinaram aqui e ganharam torneios. Aaqui você tem, por exemplo, homenagem a quem já foi campeão de boxe, ali, você tá vendo, gente de vale tudo. Esse aqui, quer ver, vou te mostrar, Joilson Bahiano, foi um que veio da Bahia para cá, porque o outro irmão se meteu com droga e nego matou ele lá, então a mãe mandou o Joilson para cá para morar com um tio aqui no morro. Aí ele veio treinar conosco, garoto de 16 anos, aos 19 foi eleito por dois anos pelo COB como melhor lutador de boxe brasileiro. Foi embora para os EUA e se tornou lutador profissional. Aqui temos vários outros nomes com histórias parecidas não só de moradores nossa comunidade, como de outras como Rocinha, por exemplo. O nome de todos esses lutadores eu ponho aqui na parece para homenageá-los. Aqui nesta parede temos muitos lutadores de MMA que já passaram por aqui e eu homenageio. Você vê que a história é longa... isso foi dando segurança para nós melhorarmos a infra estrutura da academia.

45.    SÓ CASCA ! – Uma vez entrevistando outro professor de boxe ele comentou comigo que o Brasil estranhamente em comparação aos outros países era melhor ser boxer amador que profissional. O senhor concorda ?
46.    CLÁUDIO COELHO – O que ele falou faz um pouco de sentido. Existe uma política muito grande, primeiro é a falta de investimento e outra coisa o boxe profissional no Brasil tem uma ganância muito grande fica monopolizado na mão de pequenos empresários, aquilo não expande, então se você tem um atleta talentoso, amador que quer passar a profissional se você tiver um contato bom e um empresário bom, melhor coisa é melhor mandar para exterior e não explorar aqui no Brasil, o amador é totalmente diferente, ele não gera grana, então você vê as dificuldades, quando o cara ganha uma medalha fica aquela palhaçada toda, mas cadê a grana, o investimento? Por país a fora quantos lutadores amadores não temos? Mas, requer investimento de confederação, e não é culpa do governo federal, ele libera verba todo mês, a desorganização é da confederação que não tem programa de distribuição de verba, só para você ter uma idéia, pelo estatudo ela não tem obrigação nem de dar dinheiro para as federações. Errado porque não deixa alavancar. O governo federal faz a parte dele, repassa para o Comitê Olimpico Brasileiro e ele  repassa para cada confederação de esporte, então eles fazem os programas deles, os eventos deles e só neles é que investem. Por isso eu uma vez falei isso no meu livro, uma sugestão, acho correto, tinham que ser criadas as clinicas de boxe, assim que nem você tem olheiro de futebol, se você quer assim fazer a longo prazo lutadores amadores para competirem em olimpíadas, essas clinicas ficariam descobrindo, em cada estado  talentos, e as pessoas encarregadas de serem esses “olheiros” receberiam ajuda da federação de seu próprio estado. Assim periodicamente, de ano e ano você reuniria esse pessoal e treinaria todo mundo junto. Um modelo que até os EUA já adotou e deu certo, eles não fazem porque não interessa, porque gastaria muito, segundo se desculpam, mas pela grana que entra então você vê aí a política de só fazer a competição da confederação a cada ano, e entram rios de dinheiro, então quando se quer culpar o governo federal, porque ele todo mês deposita o dinheiro, mas é assim, por isso que as vzes o sujeito fica só no boxe amador. Quando o menino que tinha aqui ganhava tudo por aqui, arranjamos um esquema para que ele fosse para o exterior como profissional porque se ficar aqui aparece um aproveitador e a vida do cara não anda.
- Academia Nobre Arte Boxe

47.    SÓ CASCA ! – Quem é o casca?
48.    CLÁUDIO COELHO – é a determinação, a vontade de vencer, acreditar no seu sonho, na verdade não é uma coisa só, são um conjunto de coisas. Quantos caras eu vejo por aí que têm vontade de ser alguma coisa e têm uma dificuldade e quando a gente descobre, é porque ele não come direito, é a vontade, mas tudo requer sorte, que a estrela do cara brilhe, que as coisas aconteçam, no momento certo, eu acredito nisso, vontade de vencer, determinação, focar e acreditar, e da onde não se espera, com um pouquinho de sorte e empurrão isso acontece. Quem nem jogador de futebol, quantos talentos vimos desperdiçados e as vezes um perna de pau tem um empresário bom e você tá vendo o cara destacado aí na mídia. Você não está vendo aí o MMA...

A Academia Nobre Arte de Boxe fica no CIEP João Goulart no alto da Comunidade do Morro do Canta-Galo em Copacabana, Rio de Janeiro.

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