sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

"Sou uma espécie de treinador russo misturado com pastor" - ENTREVISTA N. 1 - Prof. Luiz Carlos Matheus MANIMAL

ENTREVISTA N. 1
Prof. de Jiu-Jitsu, 5° Grau - Luiz Carlos Matheus MANIMAL
R. Siqueira Campos, 43 sala 303, Copacabana, RJ
12nov2012


prof. Manimal frente a janela de seu estúdio no Centro Comercial de Copacabana



Amigos,

Um dia resolvi levar adiante o projeto desse blog e a primeira pessoa que me veio a mente entrevistar foi o prof Manimal. Sempre quis conhecê-lo, ouvi muitas narrativas sobre a seriedade de seus treinos, a enorme pressão psicológica que realizaria sobre seus atletas para motivá-los e muitas e muitas histórias divertidas de seus alunos ou de conhecidos que conviveram com ele. Certo que muitas delas devem ser fantasiosas, mas, o fato é que dias atrás consegui seu telefone e solicitei um horário para vê-lo e entrevistá-lo. O texto abaixo é a transcrição de nossa conversa realizada em sua academia na Siqueira Campos em dezembro deste ano. (meus agradecimentos a Sra. Sandra Manimal pela revisão do texto)


1.                Só Casca! – Como é essa história de jiu-jítsu - JJ da elite...

2.       MANIMAL- O jiu-jítsu é da elite. Nós quebramos o galho do mundo, ensinando-o a lutar, não adianta o cara vir com outros esportes e dar porrada, isso não é defesa pessoal. Não é a realidade de todo mundo. Quando você dá aula de jiu-jítsu você prepara o sujeito para a realidade do mundo. A realidade não é a cotovelada do Anderson Silva, uma cotovelada de 300kg, não sei como não matou aquele loirinho, o Robocop (não consegui identificar a quem ele se referia...). O cara bota plaquetas de musculatura para resistir àquelas porradas, ou seja, existem técnicas específicas sendo aplicadas nesse tipo de luta. No jiu-jítsu é o mundo real, ao ser atacado você pode imobilizar seu adversário até mais forte que você e isso de forma natural.
3.       Só Casca! – o senhor já lutou vale tudo ?
4.       MANIMAL- Não... o vale tudo que eu lutei foi treinando para preparar os caras para os ringues, foi pior que o vale tudo propriamente dito. Nesses treinos eu me apresentava para o ataque onde quer que fosse, sem escolher adversários ! Mesmo na hora do treino com os peso pesados eu sempre me apresentava. Pois, casca grossa que se preze, faz todos os treinos. Ora, aquele atleta que só treina o ataque, e escolhe luta, é o verdadeiro “agente azulejo” gruda na parede e ninguém solta. Treinávamos na Carlson Gracie, 10, 15 caras, treinamento pesado. Fomos aos EUA treinar com o pessoal do wrestling e botamos todos para baixo, não tinha peso, não tinha idade , nada... era fera contra fera, não importava o tamanho!
equina da R. Siqueira Campos e Nossa Senhora de Copacabana
5.       Só Casca! –No jiu-jítsu separar os torneios por  categorias é coisa recente...
6.       MANIMAL- Antes não tinha nada disso, era tudo misturado, peso, idade... Nós popularizamos o jiu-jítsu justamente para se tornar um esporte, humanitário, no sentido de mundialmente conhecido, de alto nível esportivo. Por isso que digo que fizemos um favor porque antes era uma prática só de monges, de poucos...
7.       Só Casca! – o senhor foi aluno do prof. Carlson Gracie, como foi conviver com ele ? Ele deu a faixa preta para senhor não foi ?
na janelinha de paredes laranja (alto a esquerda) o prof Manimal dá suas aulas diarimente em Copacabana
8.       MANIMAL- Ele não só deu a faixa preta para mim como para o grupo de atletas mais respeitados no jiu-jitsu, pois na faixa preta ganhávamos em quase todas as categorias.
9.       Só Casca! – o senhor praticou jiu-jítsu desde o início com o prof. Carlson Gracie ?
10.    MANIMAL- Não fiz, primeiro com Carlinhos Gracie, irmão mais novo Carlson, sai do Carlinhos que foi para Barra da Tijuca, continuei na zona sul, indo treinar com Carlson dentro da família Gracie. Um jiu-jítsu de movimentação, de alavanquismo,  extremamente perfeccionista,  de perfeição  que você vê funcionar com  cara pequeno e com o cara grande. Aquela filosofia que foi criada para luta. Hoje todo mundo Anderson,  Minotauro são Gracie, não existe quem não seja, se você sabe chão você é Gracie...
alunos motivados do prof Manimal
11.    Só Casca! – O senhor foi graduado em ...
12.    MANIMAL- Mestre Carlson me graduou em 1993,  mas desde a faixa azul, dou aula de defesa pessoal, lecionava na academia dele e na minha. Passei 27 anos treinando com ele, vivendo com ele. Fui leal ao Carlson, como já disse ele formou os melhores atletas de jiu-jitsu da época na Carlson Gracie Team, o nome da equipe. O que não nos impediu de ter surpresas. Um dia, cheguei na academia com minha esposa, Sandra, e vi meu mestre no canto chateado. Dizia que os “faixas preta haviam abandonado a academia” e fundado uma equipe nova, inclusive levando parte dos alunos. Eu mesmo na época também recebera o convite para participar dessa equipe, ganharia muito dinheiro, mas, não aceitei. Por outro lado, fora dos tatames eu não deixei de falar com meus antigos companheiros de equipe. Continuei ao lado dele recebendo seus ensinamentos, treinando seus atletas de jiu-jitsu e MMA, enfim, vivendo com ele, sendo seu amigo, sendo fiel a ele e a equipe. Hoje não me arrependo e faria tudo outra vez se preciso. Pois minha fidelidade ao meu mestre fez brotar em mim um reforço no meu caráter e hombridade. Pergunte se alguém faz cara feia para mim? Tenho saudades dele, mas sinto a energia dele em cada atleta que eu vejo competindo.
13.    Só Casca! – Como era conviver com o prof. Carlson, ele era muito rígido ?
mais uma tarde se abate sobre Copacabana...
14.    MANIMAL- Extremamente rígido  e grande competência. Ele queria saber de seu caráter e competência, não queria saber se você era rico ou pobre, negro , aleijado. Só o teu caráter e competência, era muito exigente... Você tem um site de casca grossa, ora, você faz justamente o que o Carlson buscava na gente encontrar o casca grossa
15.    Só Casca! – Um exemplo dessa exigência...
16.    MANIMAL-  Nunca desistir, sempre perdurar ir para cima o tempo inteiro! Meu irmão André Manimal Brother judoca nos EUA sempre repetia o que o Carlson falava “quando o corpo não aguenta a moral sustenta”. Nós criamos uma filosofia de vida própria, onde nasceram vários lutadores, campões que foram sendo descobertos: Murilo Bustamante, Bebel, De la Riva, Ozires, eu, Paulo Maurício Strauss, Amaury Bitetty, Wallid Ismail, Vitor Belfort, entre outros... A ideia básica era de que o cara podia até conquistar a faixa preta e não seguir carreira de lutador, mas, ainda que fosse virar um dentista, por exemplo, seria um profissional de coragem e caráter...
17.    Só Casca! – Por falar em profissão, a  formação do senhor é de economista, não é?
18.    MANIMAL- Sim, mas, não exerci a profissão. Trabalhei 17 anos como procurador civil da EMBRAER como  despachante aduaneiro. Fiz a faculdade de economia na BENNETT (Instituto Metodista Bennett), depois comecei um mestrado em economia que não cheguei a concluir
19.    Só Casca! – Mas , paralelamente praticava jiu-jítsu ?
20.    MANIMAL- Os dois.
21.    Só Casca! – Profissionalmente vivia dos dois?
22.    MANIMAL- Dos dois, sempre vivi dos dois, hoje eu sou psicanalista. Este ano completo minha formação, hoje dia 12 concluo meu curso.
23.    Só Casca! – então hoje é dia de festa?
24.    MANIMAL - Não a festa de formatura será em maio, hoje eu completo meu tempo que eu tenho que concluir na psicanálise.
25.    Só Casca! – o senhor pretende dar consultas como um psicanalista?
Prof Manimal e sua nova paixão a piscanálise cujo simbolo se vê na parede
26.    MANIMAL- Vou clinicar também, vou prá cima da psicanálise igual fui para cima do Jiu-Jitsu, não nasci para somente ficar ouvindo teorias, eu na minha bancada  vou falar para os meus grão-mestres que estou lá para ser o melhor; não igual a eles, que são ótimos, minha guerra é com o meu melhor amigo, sempre.
27.    Só Casca! – O senhor estava falando que o jiu-jítsu que aprendeu era um jiu-jítsu de ir para cima, o que acha dessas coisas que estão surgindo, como por exemplo, guarda berimbolo, fifty, fifty...
28.    MANIMAL- O cara tem desejo de ser Gracie e, ele não consegue..., como o Mestre Camisa da capoeira, há milhões de capoeiristas, mas o Camisa é o Camisa, é hors concour , Camisa é o Cassius Clay da capoeira, é fenômeno, ninguém vai fazer igual a ele, sinto muito aos demais capoeiristas. Aí as pessoas que não têm muito conhecimento do jiu-jítsu inventam esses berimbolos da vida, justamente para dificultar a regra do jiu-jítsu clássico, um pós-modernismo cuja proposta é uma iconoclastia, ou seja, uma derrubada de valores clássicos do jiu-jitsu. Sem a escolinha clássica não existe jiu-jitsu, pois ela é a base do aprendizado desse maravilhoso esporte, sem isso você apaga no tatame.
29.    Só Casca! – deixe eu voltar um pouco mais no tempo, onde estava? o que fazia no inicio de tudo?, quando o jiu-jítsu surgiu na sua vida...
detalhe da fotografia onde se vê o prof. Robinson Gracie atribuindo o 5 grau de jiu-jitsu ao prof Manimal
30.    MANIMAL- Eu comecei no karatê, tinha uns 5 anos depois fui para luta livre, com prof. Fausto Bruno Silo Pai, o rei da luta livre, com uns 8 anos. Ele falava comigo de uma luta agarrada de kimono, elogiando, e eu não conhecia, depois vim saber que era o jiu-jítsu. Em seguida fui fazer capoeira com o Camisa. Depois cheguei no jiu-jítsu com meus 16 anos nas mãos do prof. Carlos Alberto Gracie onde  conheci o Reizon Gracie. Fiquei 3 anos. Durante esse tempo disputei vários campeonatos e só um deles perdi para o Luiz Mendes. Como lhe falei antes, o prof. Carlinhos mudou-se para a Barra da Tijuca e por sugestão do Reizon permaneci na mesma academia na Zona Sul sob o comando do prof. Carlson Gracie.  Nessa transição eu tive que adaptar o que eu havia aprendido com o Carlinhos, porque apesar de tanto o Carlinhos como o Carlson serem Gracie, eram jiu-jítsu de algum modo  diferente, ambos perfeitos, mas veja, o jiu-jítsu do Carlinhos era a aquela coisa mais clássica bonita operante, já o Carlson Gracie era um jiu-jitsu também técnico, clássico, eficiente, contudo mais agressivo. Tanto que quando eu lutava ia com tanta agressividade para dar a queda que as vezes jogava o cara por cima da mesa das bandeiras. Aí fui me adequando, levando, levando, cheguei ao estatus de faixa azul depois de 5 anos de treino, comecei em 78, e aí comecei minha academia de defesa pessoal com um time de jiu-jítsu, Academia Pergus, fui dando aula, peguei a roxa, e fui embora. Todos me respeitavam por causa de meu espírito agressivo, pois eu nunca tive medo de enfrentar nenhum homem e essa minha disposição de espírito foi reforçada pelo meu eterno mestre Carlson Gracie, que tinha verdadeiro horror ao aluno “mutuca”, “corrido”.
31.    Só Casca! – Estive olhando no youtube e Google, me pareceu que a Manimal é uma franquia ou estou enganado?
32.    MANIMAL- Não é comercial. Rapaz, é tanto Manimal que eu não sei.
33.    Só Casca! – mas são todos alunos do senhor ?
34.    MANIMAL- Sim tudo aluno meu. Eles viajam formam faixa pretas e assim vira uma rede.
35.    Só Casca! – O senhor formou quantos faixa pretas ?
36.    MANIMAL- Não sei...
37.    Só Casca! – Nenhuma uma ideia... ?
38.    MANIMAL- Talvez uns duzentos e setenta... e dentre esses faixa pretas outros faixa pretas. Tem mestre que é avô em termos de graduação de faixas pretas, eu sou bisavô ! Por isso, Família Manimal.
39.    Só Casca! – O senhor acha um problema atualmente existirem tantos faixa pretas de jiu-jitsu no Brasil, o que pensa a respeito ?
Novo simbolo das camisas a serem confeccionadas da equipe Manimal Family
40.    MANIMAL- Não, por causa da avaliação de campeonato. Há alunos de aulas particulares que não disputam campeonatos, são dadas as faixa pretas a eles porque os caras cumpriram o ritual, e eles as vezes sabem mais que os que lutaram campeonato. Porque existem dois tipos de faixa preta: os de campeonato e os de academia... estes não competem mas escovam os que competem porque passam o maior tempo treinando técnicas, já os caras de campeonato quando chegam na academia só ficam treinando a posição que eles são fortes no campeonato, perdem muita aulas, essa é a análise crônica... Mas, ambos merecem, pelo menos na minha academia, eu graduo por mérito do atleta.
41.    Só Casca! – Conheci certa vez um faixa preta ele depois do treino com a galera tomando um mate lá em Laranjeiras, falou uma coisa que jamais esqueci. Segundo ele, há três virtudes básicas de um faixa preta, mas não necessariamente, todos a reúnem... porque existe o faixa preta atleta (aquele que está muito bem preparado fisicamente , participa de torneios); o faixa preta professor (que tem muita didática para ensinar) e, finalmente, o faixa preta Mestre (aquele que é um exemplo, tem não só carisma mas é um exemplo como pessoa), o senhor acredita nisso... ?
42.    MANIMAL- Acredito, eu tenha as duas últimas. Eu não disputo campeonato, mas para comer uma feijoada eu parto para cima se for desafiado... mas, brincadeiras à parte, eu fui um cara carismático, ganhei minha torcida por causa que eu lutava com o coração. Didaticamente, aí eu provei, veja aí quantos campeões eu fiz...
Prof Manimal ostentando orgulhoso e recente título conquistado por sua equipe
43.    Só Casca! – O senhor pode citar alguns nomes...
44.    MANIMAL- Abi Rihan, Ivan Batman, Alan Góis, Ruan Carneiro, Jackson Paulo, que hoje dá aulas na França, Murilo Filho, Passarinho, Sansão. Agora o Abi Hihan e o Batman foram fenômenos, tem o Casemiro de Volta Redonda, tem muitos... há o Diego Galante, Fúlvio Mamed, Alex Pimenta, Adriano Pimenta, Jacão, o pessoal São Paulo;  na Bahia eu tenho Ricardo Gordilho, Rafinha aluno dele, entendeu? Paulinho Bêbe, Tom de Almeida, Paulo Sérgio são 70 e poucos campões , no Brasil inteiro então eu perdi a conta... Hoje eu tenho Vinícius Amaral que está comigo, foi campeão agora na Gama Filho e aqui eu tenho o Guilherme Bulhões, o Mussumba, se eu falar todos não tem como acabar. Mas, é importante mencionar ainda alguns outros campeões não só de jiu-jítsu, como Eugênio Tadeu e Hugo Duarte, ambos da luta livre; não só de minha equipe, mas todos meus amigos que são muito importantes no mundo das artes marciais: Ozires da Brazilian Fight,  Marcelo Alonso que deu muita aula e ajudou muito, tem Bolão, e outros caras, que entraram nesse contexto, Fabio Gurgel, grande lutador, Marcos Conan, Marcos Silveira, se eu for falar do conteúdo desse povo... Assim, minha história não é só de meus alunos, ela é também de meus amigos, que fizeram muito pelo jiu-jítsu, para construir o jiu-jítsu que se vê hoje em dia, como os 12 do Carlson Gracie, por exemplo,  Murilo Bustamante, Bebel, Libório, Olivetto, Francisco Sebastian, Passarinho... pessoal que lutou tudo... o próprio Pimpolho que foi um fenômeno que lutou muitos anos pela Carslon, acho que mais de dez anos, Yan Cabral que hoje tá no vale tudo, é  hors concurs do vale tudo. Temos que ser gratos a esses garotos porque eles é que levantaram o jiu-jítsu. A gente  parou e eles continuaram. O próprio  André Pederneiras, foi faixa preta do Carlson.  Fui a Copa América este fim de semana ( dezembro 2012) só tinha faixa preta meu, Abi Riham, Valente foi meu aluno até a faixa marrom, pegou a faixa preta com o Carlos Henrique. Cheguei lá só tinha Manimal, Manimal, pô aqui é minha copa então, pensei... quando eu falo para você  que o kimono é o terno do presidente é que eu quero moralizar o jiu-jítsu que nós estamos dando oportunidade ao mundo de praticar, graças ao trabalho de todas essa pessoas que mencionei e gente como você que quer divulgar o jiu-jítsu é que as pessoas vão saber que o Manimal tem hoje essa cabeça. Hoje eu não dou aula em academia, dou em estúdio, aulas particulares, sou personal de jiu-jitsu para aulas individuais e em grupo, além de treinar alguns alunos para MMA. Então o kimono sai e entra o terno do presidente da república, nós somos a elite do mundo, rapaz...
45.    Só Casca! –  Professor, sempre ouvi falar o senhor, muitas histórias, que o senhor é uma pessoa muito exigente com os alunos como explica isso?
46.    MANIMAL- Sou uma espécie de treinador russo misturado com pastor. Eu afugento o “exu” e o “mutuca” (entidades do candomblé) que insistem em incorporar em alguns atletas, ora eu acredito no potencial do aluno e sei quando ele pode sair de um Cem Kilos (posição de imobilização do jiu-jitsu) e quando ele fala “não dá, não consigo!” então entra em ação o Pastor Manimal que aos berros afugenta, afasta o “exu” e o “mutuca” e o aluno consegue sair.
47.    Só Casca! – Veja bem eu estou querendo entender sua resposta. Esse seu temperamento, que o senhor mesmo citou, haver no passado, e que é muito citado pelas pessoas que o conhecem e que talvez até fantasiem  bastante a respeito, provém da escola de jiu-jítsu que o senhor teve? A cobrança constante nos treinos , as exigências, enfim, o senhor é duro  para condicionar as pessoas a não desistirem... ?
48.    MANIMAL – Claro. Tenho alunos hoje que são do BOPE e da polícia, eles treinaram comigo desde meninos e agradecem por o que fiz por eles, porque graças ao meu trabalho eles hoje podem suportar o treinamento físico pesado exigido por essas corporações.
49.    Só Casca! – Como foi sua experiência no exterior ?
50.    MANIMAL-  Eu viajei e morei em três países, como professor, seminarista...
51.    Só Casca! – Onde, por exemplo ?
52.    MANIMAL-  Filipinas, Estados Unidos e Polônia... Devido a problemas de saúde (rins) que eu tive voltei para o Brasil e parei de viajar.  Isso não me abalou, eu dava um sorriso e dizia “tamo preparado e do chão eu não passo”. O máximo que pode acontecer é me enterrar, meu físico fica, mas meu espírito vai sair e eu vou continuar sendo o cara mais forte do mundo, eu acredito muito em mim, nunca vou dar chance de achar que eu não posso.
53.    Só Casca! – O senhor nunca foi pessimista, deprimido ?
54.    MANIMAL- Nunca ! Vou lhe contar uma história, havia uma meia amarrada lá na árvore , e um sujeito com dois metros passava esticava o braço e tocava nela. Um português lá da rua que carregava pães para nós um dia me desafiou disse “te dou (tipo hoje R$ 20,00) para você alcançar a meia”, isso bem alto na frente das meninas...
55.    Só Casca! – O senhor tinha quantos anos ?
56.    MANIMAL- Quatorze, quinze anos... e aí eu pulava, tentava e nunca acontecia. Até que um dia eu peguei a bicicleta de um amigo meu, vim correndo subi no guidon, como nem assim eu alcançava eu pulei “PUM!” e dei uma porrada na meia. Naquela idade, eu falei para mim mesmo daqui por diante eu nunca mais vou desistir de nada! Eu não desisto. Tive um problema de câncer aí...
57.    Só Casca! – é mesmo?
58.    MANIMAL- É... eu acho que doença e coisa de bundão, cara fraco. Aí me internei, não falei nada para ninguém, tomei os remédios corretamente, como psicanalista tenho que ser exemplo, né? Dei um sorriso para todo mundo e voltei com a cabeça mais forte.
prof Manimal feliz da vida me mostrando no Facebook inúmeras fotos de seus alunos bem sucedidos no jiu-jitsu
59.    Só Casca! – Faz muito tempo isso professor ?
60.    MANIMAL- É há uns 3 anos... perdi meu pai faz uma semana, todo mundo ficou horrorizado, eu perdi ele fisicamente, porém na minha cabeça ele está muito bem.
61.    Só Casca! – O senhor é um homem religioso?
62.    MANIMAL- Não. Já fui muito religioso. Eu vou te explicar porque eu não posso mais ser religioso. Eu vivo de fatos concretos. A minha religião é Deus.
63.    Só Casca! – O senhor está me dizendo que só não vai a igreja...
64.    MANIMAL- Não. A igreja eu vou como se fosse a academia, ela é a continuação da academia. As vezes eu quero confessar com o pastor, o padre, as vezes com um filósofo, eu vou e procuro quero escutar a palavras de cada um eu vivo da inteligência do outro.
65.    Só Casca! – Por falar em inteligência, como é o professor Manimal culturalmente? Ele lê o quê? Ouve o quê ?
detalhes das alunas e o black belt que auxilia as aulas do prof Manimal
66.    MANIMAL- Eu sou extremamente, exigente com a parte cultural. Fiquei horrorizado quando comecei a escrever no FACEBOOK, eu as vezes escrevia uma coisa errada e dizia “digo” corrigindo-me e todo mundo ficava rindo... o pessoal escrevendo o tal do “tamo junto” o tempo inteiro e aí nego fica falando que eu sou muito formal. A questão não é ser formal, tenho 50 anos, cabeça de velho. Esse pouco caso com o português é difícil de admitir, mas entendo que há coisas novas boas, culturalmente falando,  sou apaixonado pelo Canal Discovery, apaixonado por livros...
67.    Só Casca! – Quem são os autores que senhor leu e gostou ?
68.    MANIMAL – Paulo Coelho, por exemplo, digo os clássicos, Freud, Lacan, o livro do Freud é uma monstruosidade, são 50 intérpretes para a obra do Freud, Jung, Melaine Klein... livros técnicos de economia.
69.    Só Casca! – Na economia que são os autores, ou o senhor não lembra mais... ?
aluno do prof Manimal que assistia ao treino com sua princesinha...
70.    MANIMAL- Lembro sim os caras eram muito bons.
71.    Só Casca! – Aquele papo de marxismo, de comunismo...
72.    MANIMAL – Aquilo foi uma parte que aprendi de como você ser decadente. Para época foi ótimo, anos 80, porque hoje em dia é a Lei do Murici “cada um cuida de si”. Acabou aquele negócio de comunidade, a comunidade são para lugares onde há pobreza, miséria, para você trabalhar em projetos, você trabalhar um pessoa psicanalítica e psicologicamente fraca.
73.    Só Casca! – Por falar nessa questão de comunidade, temos visto muitos projetos sociais inserindo o ensino do jiu-jítsu para comunidades carentes o que acha disso ?
74.    MANIMAL- Depende do jiu-jítsu. Se for para educação para o caráter, epistemologicamente  falando, aquele voltado para o aprendizado. Eu durante 15 anos dei aula para crianças, adolescentes e adultos carentes das comunidades do Santa Marta, em Botafogo, e Babilônia, no Leme. Isso sem cobrar, de graça. Alguns hoje em dia são  professores no Brasil ou em outros países. Eu fazia de minha academia da São Clemente, Botafogo, e da Prado Jr., Copacabana, um centro de integração entre o asfalto e as comunidades, onde todos eram membros da mesma família. De alguns eu recebi ingratidão e de outros o respeito eterno. Eu fui um dos primeiros professores a dar bolsas para atletas carentes.
75.    Só Casca! – Quem é Luiz Carlos Matheus?
76.    MANIMAL – Olha, o que aconteceu, a personalidade do Luiz Carlos Matheus é só quando ...  eu não me lembro mais ! Todo lugar que eu chego todo mundo “Manimal, Manimal, Manimal”... é só quando alguém... não sei ! não sei te dizer ! me perdi ...
77.    Só Casca! – Então a personalidade do Manimal tomou conta do Luiz Carlos Matheus ?
78.    MANIMAL- Porque o pessoal me conhece, fui para EUA, tô na Disney, “Manimal”, no curso de psicanálise, realmente tinham pessoas que não me conheciam, talvez só lá mesmo existiu o Luiz Carlos Matheus... O Luiz Carlos Matheus é um cara extremamente discreto, fechado, assim quando ele não é Manimal  ele é um cara que quer ter privacidade, eu não tenho privacidade, minha mulher não me dá privacidade, minha família não dá, meu sobrinho não me dá, meu sobrinho me chama de mestre. Minha mulher trabalhou muitos anos comigo, ela foi muito parceira, meu maior sonho é homenageá-la, foi parceira 25 anos no jiu-jítsu, trabalhou com o Carlson ajudou nos projetos nos momentos difícieis quando ocorreu a divisão da Carlson Gracie Team.
79.    Só Casca! – O que é , o que faz um Casca Grossa ?
80.    MANIMAL – A essência de um Casca Grossa é não desistir nunca! Por isso que você me procurou, você ao longo desse seu trabalho vai entrevistar muito falsos humildes, mas eu não quero ser humilde, se eu sou bom naquilo eu vou ser bom, não vou ser humilde, humilde não pode ser um rei, não pode ser um líder. A aparente arrogância de um líder tem que ser feita com justiça e ele tem que ser um cara correto isso é o que importa.
81.    Só Casca! – Quem quiser fazer jiu-jítsu com o senhor quais são os dias, horários ?
82.    MANIMAL- Eu estou todos os dias a partir das 18:00 horas, e de manhã das 7 horas até as 10:30 da manhã.
83.    Só Casca! – Professor, muito obrigado por me receber e conceder a entrevista.
84.    MANIMAL – Falou,  claro! o prazer foi meu. Eu acho que esse teu site aí, quando você falou sobre a proposta dele, eu senti o perfil do Carlson, eu acho que o verdadeiro Casca Grossa foi o Carlson Gracie, eu acho que você tem por uma foto dele no seu site.

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